Hezbollah parte 1

fronteira do Líbano com Israel separadas pelo túmulo de um profeta.

fronteira do Líbano com Israel separadas pelo túmulo de um profeta.

Uma das tarefas mais árduas na produção de conteúdo é viabilizar uma ideia. Mas, e quando essa ideia muda bruscamente durante a produção? E quando isso acontece no oriente médio? Mas a pauta e o roteiro não eram do esporte? As surpresas acontecem e temos que ser camaleões para nos adaptar ao foco da pauta quando somos surpreendidos pelos fatos.

A primeira equipe de jornalismo do Ocidente a entrevistar com exclusividade, o líder do Hezbollah Hassan Nassarallah, foi a nossa! Eu, o Régis e o repórter cinematográfico Antonio Gil ficamos frente a frente com o cara que é nada mais nada menos que o comandante dos homens bomba! Ele é o dono do batalhão mais temido do Oriente Médio. Líder de um dos partidos que mais crescem na República Democrática Parlamentarista do Líbano. Sim! Eu, Régis e o repórter cinematográfico Antonio Gil já estivemos no "ninho da serpente".

Tudo começou na Copa América de 1.999, no Paraguai, quando o companheiro Antonio Gil conheceu uma família de libaneses que moravam em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil, e que estavam assistindo aos treinos e jogos da nossa seleção. Se você for no Líbano e se apresentar como brasileiro, você será amado e tratado com muito carinho, graças a um nome de peso do futebol do Brasil. O nosso rei Pelé, que parou uma guerra por lá! Mas essa é outra história.

Durante os treinos no Paraguai, os laços de amizade adquiridos renderam um convite para que uma equipe da Tv Globo fosse gravar um documentário sobre os esportes mais populares do país e a cultura libanesa. No Líbano, nos meses de março e abril, você consegue velejar ou jogar uma pelada num sol de rachar! E no outro dia, esquiar e surfar de snowboard nas montanhas, tamanha é a a diversidade geográfica do país. E por ser relativamente pequeno, é possível sair de Beirute pela manhã e conhecer o sul ou o norte e retornar a capital Beirute no mesmo dia. Quando o Gil retornou da Copa América, vencida pelo Brasil, ele me instigou a montar um projeto para o Esporte Espetacular que algum tempo depois foi entregue para o editor chefe Décio Lopes que topou na mesma hora! O "MOT", o principal objetivo do projeto era:"Como o esporte sobreviveu aos 22 anos de ocupação israelense no sul do Líbano."

Tudo aprovado pela direção! Mãos a obra! Hora de escolhermos o repórter para essa produção. Primeiro sugerimos o Tino Marcos, mas as obrigações na cobertura da seleção brasileira o impediram de sair do Brasil. A 2ª opção sugerida foi o repórter João Pedro Paes Leme. A Fórmula 1 não o deixou. Veio a 3ª opção, o repórter Renato Ribeiro, que é o atual chefe do esporte na Globo, que não pôde ir por conta da cobertura do futebol no Brasil. A 4ª indicação foi a repórter Mariana Becker que também estava comprometida com os esportes de ação. A 5ª e última sugestão caiu como uma luva. Alegria! Alegria! Régis topou e agora o time finalmente rumava para o Líbano.

Logo no 1º dia de gravação, nosso guia Hussein Dia, que conheceu o Gil na Copa América, nos leva ao sul do Líbano. Ficamos chocados! No topo das montanhas tinham casamatas, que eram postos de combates de artilharia e infantaria abarrotadas de munições como morteiros, caixas intactas de projéteis de grosso calibre, sacos de areia para amortecer a artilharia inimiga, equipamentos de comunicação destruídos, marcas de balas nas paredes, enfim... e o esporte? Bem, quando chegamos na fronteira com Israel vimos qual era o esporte mais praticado. Lançamento de pedras de todos os tamanhos. As pedras maiores eram arremessadas nos soldados israelenses do outro lado da fronteira. Um carro patrulha blindado, um Hummer, partia em velocidade enquanto era apedrejado sem dó nem piedade por palestinos. Quando me virei para o Gil ele já estava com a nossa arma em punho, a câmera betacam.

O foco mudou radicalmente a partir desse dia. A nossa estratégia foi gravar passagens com o Régis em várias casamatas, prisões, destroços, túmulos que dividiam a fronteira, fotos dos mártires, etc... Em todos os lugares que passávamos, atenção, Régis! Gravando!

Hussein nos contou as histórias de emboscadas e a luta do Hezbollah para expulsar os israelenses do território libanês. Nós 3 ficamos acordados a noite inteira pensando em tudo que vimos e nas histórias contadas pelo nosso guia. Quando amanheceu o dia, decidimos! Temos que entrevistar esse cara!

Foram várias idas e vindas a um "escritório" no bairro xiita de Beirute, Chiyah, aonde era o centro nervoso do Hezbollah. Voltamos de lá com a certeza que em breve iríamos nos encontrar com Hassan Nassarallah. Como bom gaúcho Regis falava:"Bah! Vamos no ninho da serpente!"

tanque de guerra abandonado

Hassan Nassarallah tem várias residências e se desloca constantemente. O Mossad, a inteligência israelense, tenta de todas as maneiras armar o bote para matá-lo. Em 2013, um carro bomba explodiu no mesmo bairro justamente para tentar atingi-lo e mais uma vez não conseguiram. Foi na mesma área aonde estivemos por diversas vezes.

Era a nossa 1ª viagem ao Líbano das três que fizemos. Permanecemos 15 dias no Líbano e o máximo que conseguimos do Hezbollah foram várias cópias de vídeos com cenas de atentados gravados pelos próprios soldados para serem utilizados como propagandas dos mártires em ação nas emboscadas vitoriosas contra os israelenses.

O que mais nos impressionou foi um comício do partido no qual fomos convidados para assistir e gravar. O que vimos ficará em nossas memórias para a eternidade. Assim que chegamos ao local tinha um tanque israelense destruído. Quando o Gil começou a gravar um dos seguranças do Hezbollah pediu rispidamente que não gravássemos o rosto dele e nada ali! Prontamente obedecemos. Quando entramos na área do comício, numa praça bem grande, nos deparamos com o Hassan Nassarallah discursando para milhares de pessoas. Todas eram simpatizantes do partido. Milhares de bandeiras amarelas e brancas eram agitadas pelo vento com a imagem de um rifle AK47 no centro enquanto o líder se dirigia a massa. No fundo do palanque várias fotos de mártires que deram a vida lutando pela causa. Na frente do palco um chafariz jorrava uma água tingida de vermelho que representava o sangue derramado pelos palestinos mortos em conflitos com o exército israelense. Ficamos mudos! Totalmente paralisados com o que estávamos vendo. Estávamos num ambiente inimaginável para as nossas vidas, o nosso cotidiano, e pra piorar, jatos israelenses sobrevoavam o local constantemente e ultrapassavam a barreira do som fazendo um barulho ensurdecedor para intimidar quem estava lá embaixo. Tinha muita gente! Mas imagino que seria imprudente lançar qualquer míssel. Se isso acontecesse muitos inocentes morreriam. O que seria muito ruim diplomaticamente para Israel perante o mundo. Bem, foi o máximo que conseguimos. Partimos do Líbano frustrados por não conseguir a entrevista mas em compensação chegamos no Brasil com um farto material inédito que fez o maior sucesso, graças ao Luís Petry, sub editor do Fantástico na época, que ficou entusiasmadíssimo com o que tínhamos na mão. Ouro puro! A série que foi exibida no Fantástico nos deu moral, muito ibope e foi o suficiente para garantir o nosso retorno ao Líbano. O foco e o "MOT"agora era a entrevista com o líder do Hezbollah, Hassan Nassarallah, mas essa façanha vou contar no próximo artigo.

eu na casamata com a bandeira do Hezbollah ao fundo.

eu na casamata com a bandeira do Hezbollah ao fundo.

Quando nos encontramos na redação, logo após a exibição da 1ª matéria no Fantástico, tomados por um orgulho enorme com o trabalho que fizemos, chamei o Régis e o Gil e disse: "amigos, antes de voltarmos para o Líbano vamos desfilar na redação!"ahahahaha!

No próximo artigo eu conto como foi a nossa 2ª viagem ao Líbano e o nosso encontro com Hassan Nassarallah, líder do Hezbollah, em detalhes.

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Puro Amor!