Terremoto no Nepal - Parte 1
equipes de resgate do mundo inteiro ajudam a encontrar corpos nos escombros.
Senhoras e senhores! Eis um Planeta Extremo! Precisávamos em algum dia de nossas vidas conhecer a essência do que significa a palavra, Planeta Extremo. Nunca, até então tínhamos presenciado e sentido na alma, emoções tão fortes! Já tínhamos ido ao Polo Sul, Polo Norte, deserto do Saara, descido as corredeiras do rio Zambeze, enfim, a terra tremeu sob nossos pés e mentes. Acredito que, pelo menos da minha parte, foi a experiência profissional mais assustadora da minha vida. Em 27 segundos, aproximadamente 10 mil pessoas foram dizimadas. Um terremoto de magnitude 7.8 na escala Richter, uma equipe de reportagem e uma nação despedaçada! E a nossa equipe estava no epicentro dessa tragédia quando tudo aconteceu.
Primeiramente farei as apresentações dos protagonistas desse terrível acontecimento e ao mesmo tempo apaixonante história de vida. Essa foto foi tirada dentro do saguão do nosso hotel em Katmandu. Ao fundo vocês podem ver o que restou de um quiosque da piscina que servia os turistas na área de lazer do pequeno hotel, no centro da cidade. Da direita para a esquerda, Marcelo Outeiral, gaúcho e nosso editor de conteúdo do programa. Comandava através de roteiros nossos repórteres em campo. Amigo e irmão pra todas as horas. Não importa o que aconteça! É o FULLMOON! Nem preciso dizer qual o significado do apelido. Basta observar bem o diâmetro da mente. Eu, produtor executivo do programa. Montava nossa logística e preparava o terreno para execução das nossas ideias. meu apelido era SADU. Clayton me colocou esse apelido quando retornamos do Everest e ficou até hoje. Igor Tavares, meu pupilo e produtor. Começou na Tv Globo como estagiário e logo foi contratado pelo Sportv, trabalhando comigo no programa Zona de Impacto em 2005. Muito competente e amigo. Difícil não ver um sorriso nesse “brasileiro”. Carol Barcellos, repórter e apresentadora. Também começou a carreira no Zona de Impacto, mas ela vai merecer um capítulo a parte na minha história. Destemida, corajosa, mãe da Júlia. Tenho muito orgulho de ter sido o cara que a lançou para o sucesso como repórter e apresentadora. A beleza é apenas um detalhe nessa mulher. Carol é pra gente mas um “guri”, na equipe do Planex. Nunca vi uma mulher se entender e transitar tão bem num grupo de homens completamente apaixonados e loucos por aventura. Um fenômeno! Clayton Conservani, repórter, meu irmão de vida é um atleta apaixonado pelo esporte. Mesmo antes do Esporte Extremo e do Planeta Extremo, já tinha trabalhado com ele em diversos momentos. Um deles foi a convivência no acampamento base do Everest, em 2008 por 23 dias, que também vai merecer um capítulo a parte. Entre eu e o “anão", como é carinhosamente chamado pela equipe, existia uma espécie de paixão pela natureza, afinal crescemos profissionalmente graças as belezas exuberantes da Terra. Na sequência, Ari Junior, o papa das imagens no Telejornalismo. Nosso "Paca”. Está ainda para nascer um repórter cinematográfico mais competente e apaixonado pela profissão como ele. Ari, era um artista! Ele pintava e retratava com a câmera no ombro, no chão, no tripé, enfim, aonde for, imagens fora da curva. Fora da normalidade. Aonde estava o Ari, todos sabiam que teriam imagens para conquistar prêmios. Ele tinha uma ternura singular e também era pau pra toda obra. Nunca vi o Ari reclamar ou brigar por alguma coisa. Ari, será um outro capítulo a parte na minha história. Trabalhos juntos em muitas produções desde 1997, e logo no primeiro especial produzido batemos o recorde de IBOPE histórico do EE. Foram 27 pontos de audiência. Hoje seria um milagre realizar essa façanha. Fomos para a ilha de Sumatra, na Indonésia, gravar uma surf trip com surfistas brasileiros. Anos depois perdemos nosso irmão num acidente aéreo. Ele estava no avião do time da Chapecoense. Ari, ficou pra sempre em nossas vidas. Uma perda pra nossa família e para o telejornalismo brasileiro. Lucas Munhoz, excelente companheiro e muito competente com um drone. Está para nascer no Brasil um piloto mais hábil que esse paulistano, de Sorocaba. Ele foi outro que peguei pela mão e o tirei de Sorocaba, aonde era o fotógrafo da prefeitura, e o levei para o Planeta Extremo. O surgimento do Lucas na equipe veio num período aonde as imagens feitas por drones ainda eram bem discretas e logicamente que queríamos levar essa novidade para o Planeta Extremo. Fomos a primeira equipe da Tv Globo a produzir imagens com drones, em 2011. E foi bastante curioso como aconteceu a entrada dele na nossa equipe. Eu e o companheiro Claudio Carneiro, através de um anúncio fomos até Sorocaba, com um carro alugado, comprar um drone que o Lucas estava vendendo. Nossa próxima gravação seria na Maratona Des Sables, no deserto do Saara. Iríamos arrasar na produção e já tínhamos convencido o nosso diretor João Pedro Paes Leme que seria maravilhoso termos um brinquedo desses a nosso favor afinal alugar um helicóptero era um custo absurdo e o drone seria uma solução maravilhosa para a produção de imagens espetaculares para o programa. Treinei durante 2 meses num simulador de voo e ao chegar no deserto consegui gravar apenas 3 segundos de imagem. Perdi o controle da aeronave durante a competição e o destino foi o chão, a poeira. Tive que comprar por mil dólares as imagens que os gringos estavam produzindo. Não eram as imagens que gostaríamos de ter mas chegamos no Brasil com as imagens inéditas para o programa. A partir dessa experiência resolvemos com o nosso diretor que a melhor opção seria termos o Lucas na equipe. Fato que se consumou! Lucas até hoje trabalha para as produções do jornalismo da Tv Globo. Ele nos agradece até hoje por essa inclusão. A vida dele mudou da água para o vinho. Mas divido esse mérito com o Claudio Carneiro, nosso MacGiver que está ao lado dele. “Carneido”, como o chamamos, é o nosso faz tudo! Produz, dirige, grava, faz a gente rir, chorar, enfim, uma cara com o coração enorme e de uma energia inesgotável. Ele e o Ari foram os únicos a participarem de todas as gravações do Planeta Extremo. Não estão nessa foto 2 monstros sagrados da edição, que foram fundamentais nas edições do Planeta Extremo, Saulo Azevedo e Eric Romar. Na minha humilde opinião os melhores editores de imagens do Brasil. Sem eles o produto final ficaria comprometido. Sempre que era possível a gente os levava para as nossas aventuras e expedições. São insubstituíveis numa ilha de edição. Outro elemento importante e que não está nessa foto foi o nosso diretor João Pedro Paes Leme. Não viajava conosco mas nos orientava e nos mostrava a direção a ser seguida. Ele foi o idealizador do Planeta Extremo. E finalmente, na foto, Makoto Ishibe, nosso mestre! Era nosso consultor e amigo. Makoto tem muita experiência e conhecimento em atividades de risco. Nasceu no Japão e veio ainda criança com os pais para o Brasil. Ele é um dos escaladores mais respeitados da América do Sul pelos seus grandes feitos no alpinismo. O terremoto jamais será esquecido por nós e por ele, pois no mesmo dia 25 de abril de 2015, era o aniversário do mestre Makoto. E foi nesse dia que essa inesquecível história começa.
Estávamos hospedados há 3 dias no melhor hotel de Katmandu, no Nepal, e nos preparávamos para ir a Pokhara, que fica aos pés da montanha sagrada, Anapurna. Mais uma aventura na minha vida profissional. Mais um episódio do Planeta Extremo, os “Caçadores de Mel”. Pokhara fica a aproximadamente 200km de Katmandu. Tomamos um farto café da manhã e rumamos para o nosso micro-ônibus repleto de equipamentos. Nosso guia, o nepalês Arpan Sharma, era um produtor local excelente, que nos ajudou muito.
Tudo pronto pra partir e alguém avisa:”...quando o Makoto entrar no ônibus vamos cantar parabéns. É o aniversário de 50 anos do nosso mestre”. Vejam no vídeo como foi essa recepção.
Fomos para o ônibus alegres e radiantes por mais essa missão. Nosso trabalho era mais divertido que qualquer outro. O trabalho era consequência e ainda nos pagavam pra isso! Sim, não se espantem. Nossa equipe era tão sintonizada que bastava um olhar para sabermos o que estava acontecendo. Tamanha era a confiança no grupo. As vezes ficava preocupado com os excessos e como mais velho da equipe, de vez em quando, tinha que aparar as arestas, principalmente com o "Anão", mas era muito divertido. Tudo pronto pra partir e alguém avisa:”...quando o Makoto entrar no ônibus vamos cantar parabéns. É o aniversário de 50 anos do nosso mestre”. Quando Makoto entrou no ônibus fizemos uma festa danada. Nesse momento eram aproximadamente 10h e nem imaginávamos o que estava para acontecer.
Já tínhamos rodado na mini-estrada sinuosa (a rodovia principal do Nepal), por 1 hora quando resolvemos parar para tomar um chá, e alguns guias, fumarem o melhor haxixe do Nepal. Ficamos nesse “bar” por uns 20min e seguimos novamente pela estrada cercada de montanhas. Na metade do percurso lembro que de repente comecei a observar uma ventania impressionante pela janela do ônibus em movimento. Foi tudo muito rápido! Vi pessoas correndo na estrada e alguém gritou no ônibus. “As abelhas!”. Eu pensei comigo por dentro: ”Caralho, que abelha pica é essa? Estamos a uns 100km de distância e elas já estão atacando aqui?”. É a “tragicomédia”. Custa a cair a ficha tentando em não acreditar no que está acontecendo. Foi quando pedimos para o piloto parar o veículo e percebemos que o micro-ônibus balançava de um lado para outro como se fosse de papel. Percebemos nesse instante que estávamos no meio de um terremoto! E pior, no epicentro do fenômeno. Ele aconteceu exatamente naquela região, aonde estávamos. Decidimos rapidamente descer e daí em diante trabalhamos por quase 4 dias, sem um descanso normal. Nosso cotidiano dali em diante mudou rápido! O foco e o objetivo passaram a ser outros. Estávamos diante de uma tragédia, in locco, do outro lado do mundo.. Descemos rapidamente e alguém alertou durante a descida! "Caraca! Um pé de maconha na beira da estrada? Caralho a estrada toda?” Não sabia se ria ou se chorava afinal, estar no lugar errado e na hora errada e ainda dar de cara com uma imensidão de CANNABIS SATIVA parecia papo de louco. Só para esclarecer, no Nepal, é muito comum ver muitas dessas plantas. Em qualquer lugar. Até no centro de Katmandu é possível encontrá-las, mas ninguém se deu conta desse detalhe na hora do perrengue.
Cada um saiu para um lado com uma câmera na mão, de qualquer modelo ou marca. No Planeta Extremo sempre falei com os companheiros que era necessário ter uma câmera com cada um da equipe. E isso foi benéfico em muitas ocasiões. Uma metodologia de trabalho simples. Quanto mais imagens gravadas, melhor ficará o produto final! A imagem diz tudo mas um texto sem imagem não tem a emoção e a força para mostrar a realidade dos fatos. Todos andávamos com microcâmeras para qualquer eventualidade e a hora tinha chegado para gravar a vontade! Com muita dinâmica nos distribuímos por todo o ambiente de tragédia que estava acontecendo ao nosso redor. Víamos as paredes das montanhas que cercavam a estrada pedras gigantes rolando pelos penhascos deixando um rastro de poeira. Emocionalmente é uma tortura da natureza sobre a nossa mente e corpo. Você sente um terremoto violento e não sabe quando o outro virá mas você tem plena consciência de que ele virá, cedo ou tarde! Foda! Tensão constante. E o Brasil? Nossos parentes e amigos? Mulher, filhos, pais, avós? Um turbilhão de imagens de pessoas que você ama e conhece começa borbulhar no cérebro ao mesmo tempo. Não podia demonstrar medo a minha equipe.
carro atingido por pedras que rolaram das montanhas.
Seguimos um pouco mais adiante pela estrada e vimos alguns carros atingidos e pessoas que foram feridas por algumas dessas pedras que rolaram. Pensei comigo mesmo:”Caraca, aquela paradinha pra tomar o café foi providencial! Nós poderíamos ser atingidos também se não tivéssemos dado essa “paradinha estratégica”. Estávamos assustados e sem rumo definido. Essa era a manchete no portal GLOBO.COM:
“…o tremor ocorreu às 3h11 (de Brasília), a 77 km ao noroeste de Katmandu e a 15 km de profundidade. Outras quatro réplicas menores atingiram o país logo após o terremoto mais potente. Testemunhas disseram às agências de notícias que o terremoto durou entre 30 segundos e dois minutos. Milhares de pessoas deixaram seus lares e estão nas ruas da capital, Katmandu, com receio de que casas e prédios desmoronem. (fonte:GLOBO.COM).”
Nem tínhamos ideia do estrago causado pelo terremoto em Katmandu e em outros países. Nem imaginávamos, que em 30 segundos aproximadamente 10 mil pessoas morreram. O Nepal é um país pobre mais de uma espiritualidade intensa e de uma resiliência fora do comum com as adversidades. Um povo humilde e simples que é capaz de superar o mesmo trauma que passaram em 1934.
Depois desse primeiro susto paramos para almoçar e para nossa surpresa tinha apenas o dono do restaurante. Todos os funcionários tinham saído para ver o que tinha acontecido com os familiares. Imagine um restaurante grande, com a comida toda na mesa(self-service), que parecia um lugar fantasmagórico, sem ninguém! De repente surgiu o dono do restaurante e disse que podíamos ficar a vontade para comer e depois pagar uma quantia simbólica pelo almoço. Comemos como se aquela fosse nossa última refeição. Contato com o Brasil nem pensar. E pra piorar, assim que terminamos de comer veio o segundo tremor. Estava debaixo de uma cobertura sentado numa pequena mureta e num piscar de olhos dei um salto repentino para sair dali. Completei a manobra com um rolamento para não me machucar. Todos ficarão assustados com a minha reação. Apenas nossa equipe estava ali. Nem a Tv Globo sabia até aquele instante que tinha 1 equipe completa do Planeta Extremo em pleno terremoto! Horas depois é que entramos em contato com o Brasil, e muito antes disso já tínhamos traçado uma estratégia de cobertura. A partir daquela catástrofe nos transformamos em gigantes e nos dividimos em 2 grupos. Um com o Clayton em Pokhara e o outro foi para Katmandu com o nosso guia para correr atrás dos parentes dele e das inúmeras histórias que contamos durante a tragédia. Não tínhamos como entrar ao vivo horas depois do terremoto e a única alternativa foi enviar arquivos pequenos pelo DROPBOX pelo email do Lucas. Gravamos vários flashs com o Clayton para o Esporte Espetacular e partimos para Katmandu para encontrar os nossos amigos.
Conto depois o que aconteceu depois desse susto inacreditável! Custou a cair a ficha! Afinal, papai do céu nos sinalizou in locco o que significava a palavra Planeta Extremo!
Carol encontra mais um carro danificado com ferimentos leves
Carol com a máscara em Katmandu.