As explosões!

space-shuttle-challen_fran.jpg

Estávamos no pico do verão carioca e eu já estava há quase 2 anos na Tv Globo, como editor de imagens. Tinha acabado de ficar noivo e trabalhava para me firmar definitivamente dentro da minha nova casa. Nesse curto período, já tinha passado no Globo Repórter, no Fantástico, na cobertura da Olimpíada de 84, sempre substituindo os colegas de férias ou em viagens internacionais. Eu sonhava em ir para algum lugar no exterior a trabalho! Mas em janeiro de 1986 fui efetivado como editor de imagens de toda a produção internacional do JN e do JG.  Pra mim uma realização pois estava me firmando dentro de um quadro de profissionais de alto gabarito formados pela dupla de diretores Armando Nogueira e Alice Maria. Seria injusto falar de alguns nomes e não falar de outros, mas naquela época tínhamos um time de craques na edição de imagens, que não existe hoje. Seria como comparar a seleção brasileira de futebol de 1982 com a de hoje em número de craques.  Para ser um editor de imagens de alto nível não basta a agilidade em manusear as máquinas ou as plataformas de edição. É preciso muito mais que isso! Editar e finalizar imagens é quase que um resultado orgânico entre você e os fatos. Uma viagem incomparável dentro de uma realidade ou sonho. É muito mais! Você está mostrando ao mundo o que você está sentindo sobre as imagens ou fatos. É como um filho que nasce para o telespectador e não pra você, com qualidade e verdade. Depois que o resultado é exibido ele não é mais seu! Pertence a história, ao CEDOC (CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DA TV GLOBO). Fico feliz em pensar que no CEDOC da Tv Globo tem muitas pérolas guardadas pra sempre que finalizei com a máxima dedicação. É assim que se vence. Sempre pensar em fazer melhor, diferente e com verdade. E foi no dia 28/1/1986, numa tarde tranquila, que aconteceram 2 fatos marcantes em minha vida profissional.

O acontecimento internacional do dia era o lançamento do ônibus espacial Challenger, de Cabo Canaveral, na Flórida. Entrei na ilha de edição após receber a incumbência de gravar o lançamento. Nas ilhas de edição existem alguns botões que você pode plugar para receber e gravar alguns sinais de satélites. Reuters, Visnews, escritório da TV GLOBO em Londres e Nova York, entre outros..., mas nesse dia, todas as atenções estavam voltadas para esse lançamento. A decupagem, que era a descrição da imagem e o tempo dela na transmissão, eram fundamentais serem anotadas em tempo real para a edição! Mas em 78 segundos após a lançamento, tudo mudou!

Matéria exibida no jornal nacional sobre a explosão onibus espacial Challenger em 1986.

Aquele tubo de aço com quase 100 toneladas e cerca de 1 bilhão de dólares explodiu e se dividiu em 2 rastros de fumaça nos céus da Flórida. Estava vendo com meus próprios olhos, ao vivo e a cores, a explosão do ônibus espacial. BUM! OH! QUE ISSO GENTE! Lembro perfeitamente das reações das pessoas, que passavam no corredor, com os olhares perplexos diante do que estava acontecendo. Alguns minutos depois entra na ilha a Cristina Pinheiro, jornalista, que era minha companheira na missão internacional, e esbaforida fala: ”Claudinho, por favor, separa rapidinho o trecho de 30s da explosão para um flash no plantão do JN”. Nesse mesmo instante, totalmente fora do momento histórico que estava acontecendo, entra na ilha de edição uma colega que admiro muito, com a expressão de revolta e ódio, e numa explosão de emoções fortes, ela diz:...”puta que o pariu Claudinho! Aquele filho da puta tentou me comer. Aquele viado! Filho da puta!” Parei imediatamente por alguns instantes para absorver aquela explosão de raiva e ódio da minha amiga e fiquei completamente atônito com impacto dos fatos que estavam acontecendo ao meu redor. O dia realmente estava explosivo. Primeiro o ônibus espacial e depois o assédio do nosso diretor tentando intimidar uma profissional. Foram 2 fatos bastante triste. Percebi em poucos segundos que tudo pode acontecer quando menos esperamos. A explosão da Challenger levou a vida da primeira professorinha a visitar o espaço e no meio de um acontecimento histórico a esquizofrenia de um diretor sem escrúpulos que não respeita o próximo. Num telejornal não existe rotina. O trabalho é dinâmico e tudo pode mudar de uma hora para outra. As notícias são como uma onda no mar. Nunca um fato é igual ao outro, seja nos fatos, seja na vida. Ah! Sei que muitos vão perguntar:”…e aí o cara comeu a jornalista?”. Tenho a certeza que não!

professora Christa McAuliffe

professora Christa McAuliffe

Anterior
Anterior

Na linha da morte!

Próximo
Próximo

Hezbollah parte 3