Hezbollah parte 3

Na fronteira.jpeg

“Vamos deixar bem claro aqui um conceito importante. Muitos confundem o partido libanês HEZBOLLAH com o HAMAS, FATAH, AL QAEDA, etc... O diferencial é que os alvos dos nossos guerrilheiros são estritamente militares e não civis inocentes.”

Começou assim o nosso encontro com a assessoria do partido na terceira viagem que fizemos ao Líbano, assim que chegamos em Beirute. As cabeças lidas por nossos âncoras nos telejornais, no Brasil, deixaram todos muito irritados, inclusive as nossas fontes no Líbano. Qualificá-los como um grupo terrorista é a pior palavra a ser dita a quem está disposto a matar e a morrer por um ideal.  

          “Nós sabemos aonde vocês moram no Brasil! Tenham certeza disso!”.

Essa frase foi marcante para todos nós no reencontro com a assessoria do partido, afinal ter o Hezbollah no cangote não seria nada agradável. Brancos, totalmente tensos e sem acreditar no que ouvimos nesse encontro sinistro, fomos nos hospedar e descansar para no dia seguinte irmos à embaixada do Iraque pedir VISAS para entrar no país e cumprir a missão! Entrevistar Sadam Hussein.

         Antes de entrar direto nos fatos vou apenas deixar documentado aqui algumas atitudes que nos surpreenderam no Brasil. Assim que a entrevista exclusiva do Hassan Nasrallah foi exibida no Fantástico a direção do jornalismo, da Tv Globo, enviou o repórter Ernesto Paglia, para Israel. A finalidade era produzir algumas matérias na fronteira com o Líbano, para digamos, “equilibrar as ações dentro dos telejornais”. É fato também que as 2 primeiras viagens foram bancadas pelos nossos amigos de Foz do Iguaçu. Somente nossas diárias foram pagas pela direção do Esporte. Apenas a terceira e última viagem ao Líbano o Fantástico arcou com as despesas aéreas e de diárias. E isso foi muito ruim pra gente porque a hospedagem seria um fator importante para termos pela primeira vez total independência dentro do Líbano e no Iraque. Nossa terceira investida ao Líbano aumentou a nossa responsabilidade em trazer de qualquer jeito a entrevista exclusiva com Sadam Husseim.

           Dessa vez tudo mudou! Dormimos os 3 num colchão de casal, num quarto do terraço de um prédio na periferia de Beirute. Começamos mal! Do condomínio de luxo aonde ficávamos hospedados com quadras de tênis, piscina, etc..., fomos agora colocados num ambiente estranho. Logicamente que rimos dessa situação. Reclamar? Nem pensar! Ainda mais depois do encontro do dia anterior. Mas rimos pra caralho durante a madrugada sobre tudo o que estava acontecendo e da situação que estávamos. Três jornalistas da Tv Globo, no auge da fama, dormindo juntos numa cama de casal? Bem é verdade que não dormi entre os 2 amigos. Nossa realidade totalmente misturada ao mundo da fantasia. Estávamos como num conto de fadas. Era a Cinderela numa carruagem de luxo e que à meia noite se transformou numa abóbora! Mas, foco no objetivo! A entrevista com Sadam não saia das nossas mentes! No Jornalismo a apuração no front é fundamental para o sucesso da reportagem e seus "efeitos".

               Acordamos e fomos para a embaixada do Iraque, e para nossa surpresa, se tudo está ruim..., tudo pode piorar! A resposta foi um sonoro, não! Naquele momento de tensão entre EUA e Iraque apenas cidadãos iraquianos podiam entrar ou sair.

                Retornamos para o nosso terraço cabisbaixos e tristes. Pra piorar, a tensão entre nós também começava a ficar evidente pois tínhamos a obrigação de chegar no Brasil com a entrevista de Sadam para o Fantástico! Vendemos esse "peixe"! Criamos expectativa!

Num desses momentos de estresse estávamos deitados no quarto sem nada para fazer, já no terceiro dia de viagem e o Régis ouviu um barulho de helicóptero sobrevoando ao longe o centro de Beirute. Régis olhou pela janela e pediu para o Gil pegar a câmera rapidamente. Gil se levantou, olhou e novamente voltou a se deitar. Régis irritado pediu pra começar a gravar o helicóptero pois Beirute estava sendo atacada! Me assustei com a frase do Régis. Mas quando vi o Gil se deitar novamente percebi que não era importante, afinal, aprendi na prática que os olhos e ouvidos de um repórter cinematográfico são de lince. Acreditei na percepção do Gil e ignorei a aeronave. Régis ficou mais nervoso ainda porque tínhamos uma imagem “fantástica”, e não estávamos gravando nada! Enquanto ele esbravejava o helicóptero se aproximou, e quando o Gil começou a gravar, vimos que era um helicóptero que lançava pesticida nas montanhas. A haste pendurada de uma ponta a outra do helicóptero era apenas um equipamento acoplado na base da aeronave com vários bicos para borrifar o veneno aonde precisasse. Rimos de chorar e de dar dores na barriga. Tudo estava dando errado e sorrir era a melhor coisa a fazer. “Lá filhinho chorou, riu e mamãe não viu e nem ouviu a nossa angústia! 

                  Mas tudo pode piorar ainda mais? Sim! Reclamamos com nossas fontes que precisávamos sair de Beirute pra gravar, pra podermos contar histórias. E prontamente nos atenderam. Nos enviaram pra cidade de Tiro, no extremo sul do Líbano, a beira do Mediterrâneo, no lado extremo aonde tudo estava acontecendo, fervilhando! Hussein, primo do nosso amigo também Hussein, nos hospedou gentilmente na própria casa. Ficamos 12 dias maravilhosos, longe dos restaurantes caros, lojas de ouro e passeios turísticos de Beirute, e agora estávamos num lugar mais humilde. Nessa cidade, muito antiga, criada pelos primeiros habitantes, os Fenícios, tivemos três acontecimentos importantes nessa última produção. Foi muito marcante em nossas vidas. Uma experiência espiritual, outra arqueológica e uma religiosa.

          Nosso cotidiano em Tiro era jogar bola. Sim! Foram quase 2 semanas jogando bola todos os dias. Sempre no fim de tarde jogávamos uma pelada com os amigos que conquistamos à beira-mar. Sempre Brasil x Líbano. Perdemos quase todas! Mesmo com todas essas "folgas forçadas", na "ipanema libanesa", estávamos nos sentindo angustiados. Sempre o Hussein nos dizia que as “ordens” eram para ficarmos em Tiro. E isso logicamente nos deixava muito preocupados depois de cada pelada.

          Num desses dias, no ano de 2001, fomos a um lugar chamado HARET AL SALHA, QANÃ, que fica a 12km de Tiro e a 10Km ao norte da Palestina. Não havia placa nenhuma indicando que ali, naquele pedaço de chão, Jesus transformou água em vinho. Os destroços de um ambiente histórico, milagroso e bíblico, se confundiam com as casas ao redor. Não há como estar num lugar desses sem sentir nada. Jesus esteve aqui! Ficamos olhando as bases dos jarros despedaçados por guerras que foram travadas aqui durante a história da humanidade e sentimos uma sensação diferente, e esquecemos da nossa missão, pelo menos durante algumas horas, e começamos a gravar tudo. Tínhamos um belo material pra levar de volta ao Brasil e inédito! Bem próximo dali, no alto da montanha, fomos até uma caverna aonde Jesus dormiu e orou com alguns discípulos durante as bodas de Canaã. Estávamos sozinhos e apenas um vela acesa. A visão do alto da caverna era belíssima! O local é visitado por vários turistas muçulmanos xiitas e sunitas. Como bom cristão que já fui, me concentrei e puxei uma oração pedindo ao Pai e ao Filho, a ajuda necessária para concluirmos nossa missão com o sucesso que merecíamos. Foi lindo e choramos juntos!

        Depois dessa experiência, todas as noites eu fazia a leitura da bíblia, a pedido do Régis. Foquei no Novo Testamento que conta sobre a vinda de Jesus por essas bandas. Toda a narrativa dessa viagem de Jesus aqui no sul do Líbano está em João 2:1-11. Régis a partir daí começou a conhecer a palavra de Deus e até hoje, em alguns momentos, ele cita versos bíblicos nas matérias que reporta. Foi pra todos nós uma experiência diferente num momento crítico do nosso trabalho que nos trouxe um pouco mais de conforto pois tínhamos uma pergunta constante em nossas mentes: ”...O que vamos explicar aos nossos superiores? Não conseguimos!”Mas essa pauta era fantástica pois nos mapas da bíblia sagrada, no velho testamento, indicam que o milagre foi dentro do território de Israel! Na região da Galiléia. Qual o interesse do Vaticano nessa área? Porque durante todo esse tempo esse lugar ficou fora do roteiro turístico cristão?

      E a entrevista com Sadam Husseim? Bem, já tínhamos desistido de tentar. Só nos restava conhecer Tiro. Fomos visitar como turistas as ruínas de Al Mina e o All Bass. Faltavam 3 dias para o retorno ao Brasil. O lugar estava abandonado. Não tinha nem portaria de entrada como estamos acostumados a ver nos parques e museus. Tiro foi completamente destruída por um terremoto no ano de 550 d.C, além disso foi castigada em várias guerras. Foi cercada durante cinco anos por Salmanaser III, com o auxílio dos Fenícios do continente. Em 586 a.C. foi dominada por Nabucodonosor durante treze anos e caiu sob o domínio de Alexandre, o Grande depois de um cerco de sete meses.Tiro continuou sendo muito importante comercialmente até à era cristã. Os persas, romanos, cruzados, mamelucos e otomanos também deixaram marcas na cidade. Hoje é habitada basicamente por muçulmanos xiitas, assim como a maior parte da região do sul do Líbano.

     Logo na entrada do museu a céu aberto colunas gigantescas faziam uma fileira grande que avançavam em direção ao mar, e vimos na metade do caminho, um camelô! Sim um ambulante vendendo antiguidades. Não demos muita atenção, mas nosso guia nos alertou para as moedas que o ambulante estava vendendo. Ele simplesmente mergulhava no mar e coletava moedas, pequenas estátuas, inúmeros artefatos originais que deixariam qualquer arqueólogo louco! Não trouxemos muita coisa porque não sabíamos se eram verdadeiras. Chegando no Brasil fui a um colecionador e ele me afirmou que a moeda de bronze original pertencia ao período bizantino pois Tiro foi uma cidade cosmopolita importante. Fiquei pensando porque não trouxe a bancada toda do ambulante. Cada um comprou um pouquinho e nem percebemos o valor histórico daquela “vitrine”. Foram 23 anos de abandono total ao patrimônio cultural. Mas, não saia das nossas mentes os rostos dos nossos diretores com a pergunta fatídica. "...e aí conseguiram?"

Faltavam 2 dias para retornarmos ao Brasil, e durante a noite na casa de Hussein, o Régis brilhou mais uma vez. Ele simulou teatralmente 2 opções de encontro com o editor chefe do Fantástico, Luisinho Nascimento, explicando como foi a entrevista e sem ela. Choramos de tanto rir mas no fundo estávamos preocupados pois não iríamos cumprir o prometido. A entrevista com Sadam Hussein!

Na véspera de partirmos para o Brasil deixamos o nosso "spa"no terraço para comer o melhor FALAFEL, de Beirute, e na saída surgiu o nosso segundo milagre. Vimos um vídeo numa locadora com as imagens de um pelotão de crianças do Hezbollah desfilando numa parada militar, em Beirute. Esse pelotão infantil estava armado até os dentes e era chamado de MOHAMED JAMAL al DURAH, em homenagem ao pai e ao filho que foram mortos por israelenses em outubro de 2.000 diante das câmeras. Essa cena foi exibida nos 4 cantos do planeta. Agora tínhamos 2 belas pautas. Compramos o DVD com o desfile das crianças e tínhamos a produção dos caminhos de Jesus Cristo no sul do Líbano.

      Ufa! Chegamos no Brasil dia 10/09/2001. No dia seguinte acordo com minha filha de 11 anos dizendo:”Pai, tem um prédio em Nova Iorque pegando fogo!” Fiquei surpreso ao ver as 2 torres do World Trade Center ardendo em chamas na CNN. Alguns minutos se passaram e quando vi um avião se chocando numa das Torres lembrei de toda a dificuldade que tivemos e da frase dita pelo assessor do Hezbollah: ”... Todos os canais estão fechados! Não existe possibilidade de fazer entrevistas agora!” Nesse mesmo momento Régis me liga e fica atônito! Carlos Henrique Schoreder, diretor de jornalismo da Tv Globo na época pediu que levássemos para a TV todo o material que gravamos no Líbano, pois tudo tinha relação com o que estava acontecendo em Nova Iorque. Saímos da folga para o inferno! A matéria do desfile foi exibida com todos os requintes terroristas. Eles simplesmente enterraram nossas amizades no Líbano e em Foz do Iguaçu para sempre! A pauta sobre Jesus foi completamente ignorada e tentamos algumas vezes colocar no ar mas não queriam. Ela nunca foi exibida. Hoje o local aonde Jesus transformou água em vinho virou um dos pontos mais visitados pelos ocidentais de todas as religiões.

         Coincidentemente ou não, 6 meses depois de voltar do Líbano ganhei um vizinho árabe! E em Araruama, acreditem! PQP, esse cara foi um dos piores vizinho que tive. Quem era esse árabe?

Tirem suas conclusões ma lembrem-se: "Eu sei o seu endereço!" Nunca mais voltamos ao Líbano!

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