Hezbollah parte 2

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Quando o pelotão dos homens bomba desfila na frente de seu líder, Hassan Nasrallah, eles sempre se posicionam com as mãos na cintura. Essa conduta significa que eles estão prontos para matar e morrer pela causa. Basta que acionem os coletes recheados de explosivos para aniquilar o inimigo, Israel. Pela segunda vez estávamos diante de uma difícil verdade em tempo real. O ódio é o sentimento dominante no Oriente Médio.

        A volta para o Líbano não poderia começar melhor. No trecho Paris/Beirute ganhamos acesso a classe executiva da Air France e saboreamos com muitas risadas esse momento. Depois de mostrarmos para o Brasil o que era o Hezbollah, o foco agora era a entrevista com Hassan Nasrallah. O líder que fundou o partido e convocou os primeiros combatentes em 1982, depois da invasão de Israel em 1978. O grupo era formado por médicos, professores, estudantes e pessoas comuns com um único objetivo. Expulsar os israelenses do sul do Líbano. Vinte e três anos depois, três jornalistas brasileiros tentavam a façanha de conseguir uma entrevista exclusiva com o chefe dos homens bomba! No ninho da serpente! E sinceramente, saímos do Brasil sem nenhuma certeza que iríamos obter sucesso. 

          Logo no primeiro contato com a assessoria do Hezbollah, no mesmo bairro xiita que fomos da outra vez, o assessor nos fala seriamente que seria muito difícil fazer a entrevista porque a agenda estava muito concorrida. Nessa primeira tentativa saímos sem perspectiva. Foram pelo menos umas sete idas e vindas ao centro nervoso do Hezbollah. Estávamos muito frustrados e sob pressão, afinal saímos do Brasil com essa promessa e o tempo estava ficando curto.

Em mais um dia de batalha pela entrevista exclusiva estávamos num trânsito intenso de Beirute, que é um inferno, indo em direção ao escritório do Hezbollah. Ficamos na orla da cidade totalmente bloqueados pelo trânsito caótico. Em nosso carro, no banco atrás estavam eu e o Gil. Na frente o Régis e nosso guia pilotando. Muito barulho, pouca sinalização, pedestres atravessando em qualquer lugar, muitos ambulantes e tinha uma Mercedes preta atrás da gente que não parava de buzinar. O Régis começou a resmungar e a reclamar dessa atitude. Finalmente quando o trânsito foi liberado e a Mercedes preta nos passou, nosso querido amigo Régis fez aquele gesto internacional com o dedo médio, pai-de-todos, que significa: ” VAI SE F....! Nossa! Meu Deus ! Nós descobrimos na prática que nenhum palavrão ou gesto pode ser pior que esse no Oriente Médio. Deu merda!!! Babou!!! Foi como uma cena de filme de Hollywood. Nem precisou de roteiro. Sintam a emoção!

          O piloto da Mercedes nos fecha e freia bruscamente interrompendo o trânsito na nossa faixa! Na sequência um armário, um árabe de tamanho fora dos padrões, desce do carro com o semblante totalmente enfurecido, e não sabíamos se estava armado e nem conseguíamos ver quem estava no interior do veículo pois nada se via lá dentro do carro. Imediatamente reagi instintivamente prevendo o pior e disse para o Régis, o autor da façanha: ” Régis, por favor, não fala nada e não reage! O cara abriu a porta aonde o Régis estava sentado e quase a arrancou tamanha foi a força. O cara berrava e babava enquanto proferia os mais variados palavrões em árabe. “Ralatamania! Andjdeupnwj! Wdiwjnwioje!eijdx!”, e o nosso guia respondia gritando em árabe pra não tocar no Régis. Dizia que ele não fez o sinal “vai se f...”com maldade e com a intenção de agredi-lo! Unhummmmmm! O Régis se limitou simplesmente a repetir: “ OK BRASIL! OK BRASIL! OK BRASIL! OK BRASIL!!! Enquanto se abaixava tentando fugir da ponta dos dedos do “anjo árabe”, que se aproximava da face dele a cada palavrão proferido. O nosso guia desesperado falava em árabe e português numa velocidade impressionante! Eu e o Gil atrás totalmente paralisados! Totalmente congelados! Não acreditávamos no que estava acontecendo. Logo pensei :”Putz! Vamos virar notícia no Líbano”. Régis morreria com apenas um soco do gigante árabe. De repente, o cara fechou a porta de uma tal maneira que o nosso carro ficou balançando por uns 5s como se fosse um terremoto. O silêncio reinou por mais uns 10s dentro do veículo enquanto processávamos em nossas mentes o que tínhamos acabado de vivenciar enquanto víamos o árabe voltando para a Mercedes preta ainda enfurecido e cuspindo todos os “carinhos árabes”, possíveis. O silencio e a tensão foram quebrados com uma frase singela do Régis em tom de brincadeira: “Bah! Que coragem! Gamei!”. Rimos de doer a barriga e chorar com tudo que aconteceu. Ufa! Foi um tremendo susto e uma lição importante pra todos nós. Nunca, em nenhum lugar do mundo, devemos fazer gestos obscenos para os outros. Estamos em outra cultura e num lugar aonde as marcas da guerra estão presentes. As pessoas vivem sob um stress diferente do nosso. Aqui no Brasil esse gesto podemos dizer que até brincando fazemos. Mas o Líbano não é o Brasil.

         Deu até fome! E adivinha aonde fomos comer pra aliviar a tensão? No lugar menos improvável do planeta pra ir pelos ares. No Mac Donalds! Que pureza essa equipe.

        Passado o susto, no mesmo dia, fomos convidados para um jantar com 2 empresários libaneses que queriam nos conhecer. A nossa preocupação só aumentava pois teríamos mais 4 dias pela frente e o retorno para o Brasil.

        No caminho para o jantar nosso guia nos disse que estávamos indo para o bairro cristão de Beirute. O restaurante era um dos melhores da cidade. Achamos estranho e logo pensamos na grana. Estávamos pra variar, sem dinheiro. Quando chegamos deu pra sentir que estávamos num lugar muito fino. Fomos apresentados aos empresários que tinham o domínio da língua portuguesa mas eram libaneses e ficaram totalmente apaixonados pelo Régis. Foi um dos jantares mais divertidos que participamos. O Régis brilhou contando histórias do futebol brasileiro! Ficamos sabendo mais tarde que esse jantar com os caras carimbou nossa entrevista com o líder do Hezbollah. Já no dia seguinte recebemos a notícia de que finalmente faríamos a entrevista. Esse encontro triunfante aconteceu dois dias antes da nossa partida. Ufa! Ficamos aliviados! Mas se por um lado tínhamos a certeza, a partir de agora veio a preocupação. O que perguntar a ele? Na véspera da entrevista eu, o Régis e o Gil ficamos uma madrugada inteira formulando 10(dez) perguntas ao homem mais temido e respeitado do Oriente Médio.

Nesse jantar no lado cristão de Beirute selamos o nosso encontro com Hassan Nasrallah.

Nesse jantar no lado cristão de Beirute selamos o nosso encontro com Hassan Nasrallah.

Estávamos no mês de setembro de 2000. O dia começou quente, limpo e com o céu azul. Duas Land Rovers pretas, blindadas e filmadas vieram nos pegar. Só dava pra ver o mundo exterior pelo vidro da frente do carro. Nas laterais nada se via. Nem de fora pra dentro e nem de dentro pra fora. Ficamos em movimento pela cidade por aproximadamente 2 horas até entrarmos num portão de um condomínio com homens armados de fuzis e com toucas ninja. Descemos do carro e lembro que tinha uma loja de acessórios de caça e de parafernália militar junto a um pequeno prédio aonde entramos. Já na portaria demos de cara com um detector de metais. Nesse mesmo momento, três seguranças de terno e armados, se juntaram a nossa equipe. Subimos uns sete andares aproximadamente e ao sairmos do elevador fomos encaminhados a uma sala que não tinha janela. A cortina era apenas uma decoração. Era uma espécie de sala de entrevistas. Eu suava em bicas (ver foto - parte 1). Estávamos muito nervosos e pra piorar a nossa situação ficamos esperando quarenta e cinco intermináveis minutos, aguardando o tão esperado momento com os seguranças ao nosso lado. A gente falando português e eles falando árabe. Foi um momento tenso até que nossa estrela surge de turbante preto e uma túnica marrom comprida. Nos cumprimentou e foi lindo! Conseguimos! A pergunta mais importante que fizemos foi porque ele enviou o filho pra guerra? Filho esse que acabou morrendo lutando. A resposta foi direta e sincera : ”Sou muito orgulhoso de ter um filho morto em combate, um filho mártir que morreu por uma boa causa. Peço para os pais mandarem seus filhos para o Hezbollah e eles acreditam em mim. Eles entregam seus filhos. É natural que eu faça o mesmo com meus filhos. Não seria correto que os outros fizessem e eu não. O que vou dizer para os meus combatentes a morte do filho que ele enviou pra luta? Não seria justo que os outros lutassem e eu mandasse os meus filhos para a América e se tornassem médicos ou advogados. E asseguro, os meus outros filhos seguirão o mesmo caminho. Me sinto honradíssimo de ter um filho meu que morreu lutando.” Terminada a exclusividade batemos algumas fotos e pela 1ª vez vimos um sorriso naquele semblante sério e sisudo. 

Comemoramos a conquista e ainda tínhamos um dia para traduzir todo o conteúdo da entrevista e saborear a nossa chegada triunfante ao Brasil. Orgulhosamente, fomos a 1ª equipe de jornalistas do Ocidente a conseguir essa entrevista exclusiva.

          Antes de partirmos de Beirute fomos ao escritório xiita agradecer e recebemos um pedido do assessor: “ Nunca digam que somos terroristas!”. Pensando no futuro pedimos ajuda para tentar uma entrevista com Sadam Hussein. E eles prontamente nos disseram que fariam o que fosse possível para nos ajudar.

       Partimos de Beirute com a certeza que a próxima viagem seria para o Iraque aonde uma guerra estava pra acontecer. Ficamos sonhando com essa possibilidade ao retornar para o Brasil. Só que dessa vez tivemos um revés. Numa das cabeças do Fantástico colocaram o Hezbollah como um partido de “terroristas”, numa de nossas matérias. O que se via aqui se sabia lá! Quando chegamos em Beirute pela 3ª vez fomos imediatamente ao escritório do Hezbollah. Ao chegar, Régis ouviu a seguinte frase do assessor: “nós sabemos aonde vocês moram. Nós sabemos o endereço de vocês”. Rolou um interrogatório pesado! Régis saiu pálido do encontro. No próximo artigo conto pra vocês o que aconteceu. Foi sinistro! 

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