Terremoto no Nepal - Parte 3
Depois de 48h do mais catastrófico terremoto do Nepal nos últimos 80 anos, fincamos nossa bandeira no lobby do hotel! Montamos ali todas as estratégias de logística, de produção e de entradas ao vivo. Makoto foi muito importante nesse momento. Nosso mestre já escalou montanhas sem cordas! Já foi instrutor de operações de resgate para o Corpo de Bombeiros, em São Paulo, e nos passava importantes informações sobre segurança naquela situação. Imaginem! Passar o aniversário no meio de um terremoto? Pelo menos ficará para sempre na nossa lembrança o aniversário do mestre Makoto Ishibi.
Tudo era decidido ali. Inclusive nosso futuro. Quando tudo vai acabar? quando irão parar as réplicas? Quando voltaremos para casa? Eram muitas perguntas sem respostas por um simples motivo. Os olhos do Mundo estavam voltados para o Nepal. Foi o terremoto mais violento do século 21, que mal começou! Depois da primeira noite mal dormida a missão era colocar o que tínhamos em mãos para funcionar os equipamentos da Tv estatal Nepalesa. Tínhamos 2 equipes em ação. Ao final de cada dia, nos reuníamos na "nossa redação”! Discutíamos o dia seguinte e as entradas ao vivo dentro do Jornal Nacional, que estrearia um novo formato. A responsabilidade só aumentava. Esse formato é utilizado até hoje! Interatividade entre repórter e âncora, como se estivem no mesmo ambiente com a ajuda do telão. Inclusive o olhar deveria ser direcionado para onde estavam Bonner ou a Renata.
Apesar de todos os problemas que enfrentamos conseguimos o que precisávamos para entrar ao vivo, mas e pagamento? Como vai ser feito? Essa pergunta foi feita pelo Supervisor da TV Estatal do Nepal! Esse tipo de transação é feito por invoice entre as Televisões do mundo todo. A compra e a utilização de sinais de satélites, para que seja feita a transmissão ao vivo, é feita através confiança! E nos foi cobrada a quantia, em dinheiro, US$ 15.000,00 (quinze mil dólares). Esse valor se refere a apenas 1 dia de entrada ao vivo, por uma hora. Igor e o Arpan explicaram que em 3 dias esse dinheiro estaria na conta corrente da Tv Nepalesa. Nesse ambiente de negócios se trabalha com confiança e credibilidade. Se tiver calote, não transmite nada no dia seguinte! Assim foi feito! Mais uma vitória no meio do caos! Entraríamos ao vivo, às 4:30h da manhã no Nepal, 20:30h. O gerador e a UM foram testadas com êxito e já estávamos falando com o Brasil (TV GLOBO), que se encarregou da compra de sinais para a transmissão. Teríamos uma janela de sinal por 1h, tempo suficiente para as entradas ao vivo do Clayton e da Carol. Mas tínhamos um problemão pra resolver, muito sério e de difícil solução. Talvez pelo stress causado pelo momento, o nosso guerreiro Clayton Conservani, estava praticamente sem voz, e foi gradativamente piorando a cada hora. Todos estávamos ainda muito abalados com tudo e a tarefa de fazer ao vivo nos deixou muito ansiosos e nervosos. A pressão foi gigante com a aproximação das entradas ao vivo. Mal dormimos diante de tanta responsabilidade e medo. As réplicas(pequenos tremores), ainda nos atormentavam. Perdi a conta de tantos que aconteceram. Sempre adotamos a seguinte norma. Sempre um de nós ficava de vigília na "redação, para nos acordar se acontecesse qualquer fato inesperado. Tínhamos milhares de dólares em equipamentos e nossas vidas, por isso era necessário esse procedimento e deu certo!
Acordamos muito cedo, aproximadamente 2:30h, e ao sair do hotel, a cena parecia um filme catástrofe. Milhares de pessoas vagando sem destino. Estava um pouco frio e uma chuva fina(garoa). Quando paramos na calçada da TV vimos que o estacionamento estava abarrotado de famílias dormindo ao relento. Ao redor da "nossa UM” , haviam muitos cidadãos enrolados em cobertores lonas improvisadas para poderem dormir e se protegerem do relento. Uma cena muito triste de ver. Pensei muito na minha família, mas o que trazia tranquilidade é que sabia que eles estavam melhores que a gente. Nunca imaginei de viver esse terror. O povo nepalês é muito religioso e resiliente. Em nenhum momento vimos desespero, saques ou qualquer outro movimento nesse sentido. Eles estavam desabrigados, com o olhar distante, vagando pelas ruas aguardando que o destino os colocasse numa situação melhor.
Mas a grande surpresa do dia foi quando vi pela primeira vez a estrutura na qual iríamos entrar ao vivo. Eu me perguntei como é que aquela geringonça que estava abandonada no mesmo local há 7 anos cumpriria essa missão? Cabos descascados, fios a mostra, parecia uma máquina abandonada num ferro velho tamanha era a quantidade de ferrugem fora e dentro da “UM”. A força do gerador era conectada por um fio desencapado. As instalações eram tão precárias que colocar o gerador pra funcionar foi um parto! Mas como disse o mestre Makoto:"…No final tudo dá certo!”. A probalidade de nossas entradas darem errado era muito grande! O risco de cair o sinal ou dar pane naquele sistema eram gigantes. A coordenação das entrada ao vivo era feito por um celular muito sem vergonha e sinceramente, funcionou muito bem! Os 5min finais para a nossa entrada foi de um nervosismo incalculável. E quando a Carol respondeu ao Bonner, veio um alívio e uma satisfação enormes! Fizemos história mais uma vez! Já tínhamos sido a primeira Tv no Planeta a entrar com informações no Esporte Espetacular poucas horas depois do terremoto, e agora entrar ao vivo, direto do Nepal, rodeado de seres humanos precisando de ajuda, para todo o Brasil, deu um baita orgulho da equipe. Os nossos 2 âncoras estavam ao vivo, 48h depois de um terremoto devastador. As equipes de outras emissoras do mundo inteiro ainda nem estavam em solo nepalês. E nós estávamos lá! Ao vivo, para o planeta, contando as histórias terríveis dessa catástrofe.
Pasmem! Sete segundo depois de fazermos todas as entradas ao vivo, o gerador desligou! Um dos fios desconectou e deixou a UM(unidade móvel), sem energia. Olhamos incrédulos para o gerador, mas a missão foi cumprida! Comemoramos todos abraçados por mais essa conquista. Não cabia felicidade dentro de nós. A satisfação do dever cumprido naquelas circunstâncias nos encheu de orgulho! Sim, a equipe! Tudo é uma maravilhosa engrenagem que deu certo apesar de todas as dificuldades que encontramos, vencemos mais uma vez! Em televisão nada se faz sozinho!
Famílias dormem no estacionamento da TV Estatal Nepalesa
Durante 6 dias fizemos uma cobertura, no mínimo espetacular! Mostramos para todo o Brasil as mazelas de um terremoto, in locco! Levamos para esse campo de “batalha”, as experiências de cada um, na participação de grandes eventos pela Tv Globo, realizando um trabalho inimaginável e incansável. Tentamos o possível e alcançamos o impossível diante de vários obstáculos. Todos nos sentimos muito felizes com o desfecho do trabalho. Missão dada, é missão cumprida! Ganhamos no ano seguinte o prêmio interno da Tv Globo como a reportagem internacional mais importante do JN daquele ano.
Não! Ainda não acabou! Não era o fim! Tínhamos um destino inicial. Nossos planos eram outros, lembram? Os Caçadores de mel do Nepal. Depois de tudo que aconteceu nos deparamos com um problema interno. Voltar ou não voltar para o Brasil? Eis a questão! Conto depois como foi a nossa decisão de voltar ou não. Decidimos no voto! Na democracia! Quem viu, viu! Quem não viu saberá o que aconteceu nessa votação.