Os Caçadores de Mel - Nepal - parte 1
Clayton, eu, Carneiro e Outeiral nos escombros 2 dias depois do terremoto.
Veio a tempestade e depois o sossego pra pensarmos no que iríamos fazer depois de todo aquele sofrimento e angústia. Foi o melhor momento em nossas carreiras profissionais. Até hoje somos bastante unidos. Nosso grupo no whatsap continua fiel e forte! Seja, na tristeza, na alegria ou na dor. Formamos uma família e nossos familiares outra, a "família extrema". Nossos laços serão eternos por tudo que passamos. Não apenas por conta do terremoto mas produzir, gravar e exibir um episódio do programa exigia de todos um comprometimento fora do comum. Diria, fora da curva! Um esforço físico e mental absurdos. E o resultado desse trabalho é fácil de entender e explicar através dos inúmeros prêmios que recebemos. Como dizia nosso diretor João Pedro Paes leme:”…o que é um produto se na esteira dos resultados não há um prêmio, um reconhecimento?” Mas mesmo depois de tanto sucesso, nosso programa foi ignorado pelo Fantástico, pela programação e até pela direção da Tv Globo! O Fantástico ficou pequeno pra gente. A diretoria resolveu que o programa deveria ficar escondido de todos, numa época aonde as redes sociais avançavam numa velocidade impressionate. Ficamos 2 anos produzindo episódios sem saber aonde iríamos exibir, gastando milhões de reais. A produção de um programa como o Planeta Extremo é caro! Não é barato! Uma temporada, por exemplo, custava em torno de R$ 3.800.000,00(três milhões e oitocentos mil reias). O brinquedo era caro! E apesar de todo esse custo, a programação resolveu nos jogar num horário depois da meia noite, e mesmo assim o programa apresentava números surpreendentes. Até hoje nenhum programa deu 10 ou 13 pontos de média, num horário ingrato, depois da meia noite! Quando a programação resolveu nos dar espaço, o Planeta Extremo não decepcionou. Até hoje não conseguimos entender porque o programa nunca foi comercializado! Sim, tiro no pé! O jornalismo e a programação não se entendiam e ignoravam os resultados do programa por puro ego entre diretores das respectivas áreas. Impressionante, mas é a pura verdade! Internamente era visível a inveja de outros colegas diante de tanta repercussão. A carapuça certamente vai servir para muitos que lerem essas palavras e que desejavam o fim do programa. E o nosso trabalho tinha um objetivo muito simples. Levar o nosso telespectador aos lugares mais inóspitos desse planeta. O departamento comercial estava inerte diante do sucesso do programa. Nunca entendemos porque o Planeta Extremo nunca foi comercializado. Bem, mas temos muita história ainda pra contar dos bastidores do programa que levou a maior quantidade de prêmios na história do jornalismo esportivo. Beijo no ombro cambada de invejosos e burros, porque o nosso sucesso era o sucesso de todos, e ajudava a garantir o trabalho de muitos também. Enfim, vamos ao que interessa. Os Caçadores de Mel após o terremoto.
Depois que recebemos sinal verde da nossa direção para retornarmos pra casa percebi que apesar das nossas mentes estarem voltadas para o encontro com os nosso familiares, ainda tínhamos essa produção inédita para o programa, “Os Caçadores de Mel”. Não podíamos deixar essa oportunidade de ouro escapar. Ninguém ainda tinha gravado com esse povo nepalês que tem essa cultura milenar. Ir atrás dos favos de mel que ficam encrostados nas paredes de pedra as margens de alguns rios que descem dos Himalaias seria a nossa próxima aventura, afinal quando teríamos outra oportunidade como essa? Essa cultura foi passada de pai pra filho, mas está ameaçada pela falta de interesse dos descendentes. É uma cultura de subsistência, e que não gera a renda esperada. Apesar de medicinal, o mel é vendido ou trocado por outras mercadorias entre os povoados das montanhas. Uma forma de escambo entre os cidadãos dos lugarejos e sítios vizinhos.
Estávamos reunidos no lobby do hotel e a direção da Tv Globo deixou a nosso critério a decisão de voltar para o Brasil ou continuar com o projeto inicial. Puxei o assunto inevitável. "…amigos o que faremos a partir de agora? Vamos ou não gravar os Caçadores de Mel? A minha decisão já estava tomada naquele momento. Ir para Pokhara! Deveríamos tomar uma decisão imediata pois não teríamos outra oportunidade como essa. Éramos 9 pessoas e ficou claro depois de todas as argumentações que iríamos decidir entre nós! Tínhamos autonomia para tomarmos a decisão que fosse.
Eu argumentei que não teríamos outra chance de voltar para gravar uma história maravilhosa. E mais, seria inédito para a televisão mundial. Nenhuma tv tinha gravado. Tudo bem! Muitos vão dizer:"…mas e as famílias que estão no Brasil preocupadas, a saudade…? Tudo pesou na decisão! Em 1 hora definimos democraticamente o que faríamos depois daquele terremoto em nossas vidas. Eu, Clayton, Ari, e o Lucas optamos por continuar a viagem. Carol, Outeiral e Igor, votaram pelo retorno ao Brasil. Carneiro topava qualquer decisão. Makoto se absteve mas ficou claro que pra ele o melhor seria continuar com a proposta inicial, que era de irmos para Pokhara. Nós estávamos com poder de decisão. E foi decido pela maioria, e consenso de todos, que iríamos produzir os Caçadores de Mel, do Nepal. Foi uma experiência fantástica depois de tudo que passamos e de muito aprendizado. Democraticamente decidimos ir para Pokhara. Nossa equipe era fantástica nesse aspecto. Foram tantos anos trabalhando juntos que era muito difícil haver algum conflito. Tinha alguns momentos de "xiliquinho", mas eram passageiros. Sentíamos um carinho tremendo um pelo outro, e que dura até os dias de hoje por tudo que passamos juntos e pela afinidade natural entre nós.
E como estávamos de bola cheia pensei numa ideia que seria excelente para todos. Por iniciativa própria, enviei um email ao nosso time no Brasil, de passagens e hospedagens, com a seguinte frase:"…amigos devido aos momentos duríssimos que passamos aqui no Nepal nossos esqueletos mereciam um belo e confortável retorno ao Brasil, na classe executiva.” Bem, arrisquei! O máximo que poderia acontecer era eu receber um sonoro NÃO!
A verdade é que um produtor deve acreditar sempre em todas as possibilidades ,mesmos as mais difíceis ou impossíveis. Pensei comigo! Poxa a Tv Globo faturou na exclusividade, na audiência, na credibilidade e no sucesso de uma equipe do outro lado do mundo, numa missão muito complexa. Uma classe executiva para 9 pessoas seria um pingo no orçamento.
No dia seguinte, recebi o email da direção autorizando o nosso retorno de executiva. BINGO!!! Precisávamos de algum incentivo! Estávamos longe de casa, dos amigos, da família e merecíamos muito pelo trabalho feito. A notícia positiva deixou todos muito felizes! Fomos para Pokhara com um só pensamento! Vamos trabalhar mais 1 semana e voltaremos pra casa.
Partimos de Katmandu bem cedo do hotel aonde estávamos hospedados. A cidade começava a voltar a normalidade e novamente seguimos pelo mesmo caminho aonde sentimos o primeiro tremor. Durante a viagem de 2 horas até Pokhara, vieram na mente muitas imagens do terremoto que vivenciamos juntos, mas tudo passa! Nosso carro saiu do asfalto e atravessamos uma encosta de estrada de terra bem acidentada, com muitas curvas e chegamos num lodge que abrigava turistas do mundo inteiro para a prática do trecking e a visão era exuberante, estonteante e deslumbrante. No horizonte bem próximo aos nossos aposentos, contemplávamos a montanha sagrada do Nepal, Annapurna, com seus 8.091m de altitude de imponência, bem a frente de nossas varandas. O terremoto aqui não interferiu na normalidade desse povo humilde, e fomos muito bem recebidos muito bem com um jantar. O prato de boas vindas foi o DAL BAHT, que é uma refeição tradicional do da Índia e do Nepal. Consiste em arroz cozido no vapor e uma sopa de lentilha chamada dal. É um alimento básico nesse país. Bhat ou Chawal significa "arroz cozido" em várias línguas indo-arianas e vem carregado na pimenta devido ao frio que faz nessa região. Você come esse prato e se sente super alimentado. Muito gostoso!
Depois do jantar fomos para o terraço do lodge contemplar a montanha e contar as histórias recentes. Refletimos bastante sobre os fatos que aconteceram durante a tragédia. Mas precisávamos rir para esquecer as tristezas e ao mesmo tempo desejar ardentemente que os dias passassem rápido para retornarmos pra casa, de executiva!
Acordamos cedo e nos sentamos todos juntos a mesa para organizar nosso encontro com os caçadores de mel. Até esse momento não os tínhamos visto e quando nos deparamos com esse time ficamos surpresos. O mais novo deveria ter uns 45 anos de idade, e a maioria, de 50 a 75 anos. Fiquei pensando comigo como que esses caras escalam a parede pra pegar os favos de mel? Observei uma escada bem rústica enrolada, tipo um carretel, e perguntamos se eles utilizariam nossa cordas para a coleta do mel. Nosso guia respondeu que não! Eles utilizariam aquela escada feita de cordas de sisal e madeira para descerem a parede. Eles mesmos confeccionaram aquele “artefato", e que tinha a durabilidade de 15 a 20 anos! Logo pensei em botar uma injeção de adrenalina no Clayton pra gente dar risada. A tônica da nossa equipe era essa! Botar pilha nos companheiros e rir. Indaguei ao Clayton seriamente:”Anão vamos utilizar as cordas deles pra trazer naturalidade a gravação, o que você acha?” Clayton olhou de surpresa pra mim e respondeu :”É sério isso? Escapei de um terremoto e agora você acha que eu vou me arriscar nisso ai?” Não pude conter a gargalhada. Rimos muito dessa brincadeira.
Brincadeiras a parte, estávamos diante de um problema sério! Os caçadores argumentaram que a cultura não permitia que mulheres participassem da coleta de mel. Nunca uma mulher tinha participado e não seria aquela vez. Eles ficaram irredutíveis nessa questão até que me surgiu uma ideia. Pedi ao nosso guia Arpan que argumentasse com eles que éramos de um programa na televisão brasileira de grande alcance e que tínhamos viajado milhares de quilômetros apenas para isso, e que a Carol não poderia ficar de fora dessa gravação, já que ela e o Clayton eram os âncoras dessa pauta. Eles ficaram irredutíveis até que finalmente argumentei novamente com o nosso guia que todos os nossos equipamentos(cordas novas, gerador, roupas de proteção, etc..), seriam doados assim que a produção terminasse. Foi o argumento certeiro! Finalmente eles toparam, meio a contra gosto, mas toparam. Superado esse obstáculo começamos a descer uma escadaria feita de pedras por eles mesmos, interminável! De cima dava pra ver que um rio serpenteava a encosta de pedra, e para impressioná-los colocamos a Carol pra carregar um cesto deles cheio de equipamentos. Ela sofreu pra carregar por poucos metros aquele cesto de bugingangas, e logicamente que ríamos muito daquela situação mas pra matéria ficou ótimo esse momento.
Carol e o Clayton sempre diziam que eu era o torturador da equipe, e que sempre queria ir no limite das nossas aventuras, mas era essa a proposta. Logicamente que tudo tem limite! E a segurança de todos vinha em primeiro lugar, e modéstia a parte eu sabia qual era o limite dos meus dois queridos amigos que chamo até hoje carinhosamente de: “MEU GALO!(Clayton), e MINHA LEBRE(Carol). Sempre foram e sempre serão a representação da coragem e da garra! São 2 pessoas que amo de uma maneira bem peculiar. Não tinha como ser diferente. Passamos juntos grandes momentos recheados de desafios em nossas vidas, e me orgulho bastante de ter colaborado para o crescimento deles e da nossa equipe.
Depois de 1h descendo aquela escadaria interminável chegamos a um platô de onde dava pra ver a parede com os favos amarelados recheados de mel mas fomos avisados que teríamos que participar do ritual antes da escalada. Esse dia seria dedicado ao reconhecimento do terreno e ao ritual. Achamos maravilhoso gravar essa manifestação cultural que perdura por milhares de anos ali naquele local. Ficamos encantados de poder gravar esse momento, mas de repente, vimos um deles descendo com um bode! Sim um bode! Mas o que um bicho desses estaria fazendo aqui? Nosso guia nos disse que o animal seria sacrificado! Caralhoooo! Não vamos gravar isso! O guia argumentou que seria como uma ofensa e que poderia atrapalhar a produção do história! As reações foram as mais variadas. A Carol foi a mais relutante! Mas se tudo está ruim é sinal que pode piorar mais ainda. Além da matança do bode teríamos que comer o animal num almoço que os próprios caçadores fariam pra gente. Caralhoooo 2!!! PQP, teríamos que assistir o bode ser morto e além disso come-lo? Alguns ficaram irritados e outros riam da situação. Carol e o Igor não comem carne ainda mais de bode! O Igor é vegetariano roxo!
Não teve jeito teríamos que participar do ritual. Os caras acenderam uma fogueira e houve um pronunciamento do mais velho. Foi colocado uma "TIKA", esse pontinho vermelho na testa de cada um. É uma mistura com creme de arroz moído. Acredita-se que ao receber a "TIKA”, você terá a força necessária para ter sucesso, e que significa também a vitória do bem sobre o mal. Todos ganhamos uma "TIKA”na testa. A partir daquele momento estávamos definitivamente inseridos na cultura quer queira, quer não! E pra completar teríamos que comer o bode todos juntos!
Mas o pior estava por vir! Tínhamos que ver e estar presentes no sacrifício! O mais velho acendeu uma pequena fogueira e começou a proferir palavras aos deuses hindus e o restante do grupo fez uma roda em volta do bode. Enquanto um rezava os outros jogavam sal e pétalas de flores no bode. Quando a reza cessou, um deles apareceu com um machado gigante. Olhamos aquela cena totalmente incrédulos. Não dava pra acreditar no que estávamos vendo. O Ari gravando como um louco. Argumentamos com ele que era pra fazer chapa 13(gravação fake com a câmera), pois não usaríamos na TV. Imagina dentro do programa um bode sendo sacrificado? Jamais entraria no ar, mas o Ari gravou do mesmo jeito. Mas tudo piorou quando um deles deu a porretada, virei o rosto, e quando me virei novamente, o bode ainda estava com a cabeça, mas ficou totalmente tonto e gritando desesperadamente. O animal estava sofrendo. Novamente me virei para não ver aquela cena. E de novo foi desferido outro golpe mas dessa vez certeiro. Quando olhei novamente para a cena do ritual o bode já não mais se movia e estava sem a cabeça. Nossa! Nunca tinha visto isso. Nenhum de nós! Ficamos em silêncio e perplexos com tudo aquilo que presenciamos. É da cultura! O que podíamos fazer? Mais tarde um deles falou para o nosso guia que aquilo nunca aconteceu. O golpe sempre foi certeiro e alegou que a presença da Carol não estava trazendo um bom presságio para a coleta do mel. Depois, enquanto eles carneavam o bicho fomos ver a parede que a Carol e o Clayton desceriam para acompanhar a coleta do mel.
Já era tarde e a fome apertou. Terminamos de fazer o reconhecimento e subimos para o platô para comer e todos os caçadores estavam nos esperando para o banquete regado a ensopado de bode. Preparado ali naquele mesmo platô. Posso garantir que o bode estava gostoso pra cacete. Comi 2 pratos. Já a Carol e o Igor se limitaram a se alimentar de arroz e vegetai. E o bode? Não sobrou nada! Agora só nos restava o dia seguinte pra gravarmos o ápice da produção e voltarmos finalmente pra casa. A ansiedade só aumentava. A digestão foi feita subindo a escadaria de aproximadamente 2km até o lodge! No próximo episódio conto como foi o nosso encontro com as abelhas do Nepal! Foi tenso mano!